Bicicletas: solução para o trânsito caótico de Niterói

Por Juliana Justem 

O importante é substituir o carro ou o tradicional transporte coletivo pela bicicleta.

bike

Com mais de 487 mil habitantes, Niterói não é conhecida apenas pelas belas paisagens e obras do arquiteto Oscar Niemeyer. A cidade é destaque quando o assunto é engarrafamento. Suportar ônibus, barcas e catamarãs lotados, além do estressante trânsito da ponte e avenidas para chegar ao Centro ou ao Rio de Janeiro já faz parte do cotidiano de muitos. Nas ruas, os pedestres desaparecem em meio aos carros, motos e transportes públicos. Um verdadeiro caos.

A estação das barcas localizada na Praça Araribóia é um dos principais meios de mobilidade urbana da cidade. A CCR Barcas transporta diariamente 110 mil pessoas, que enfrentam alguns problemas, como as longas filas para comprar os bilhetes e os atrasos que ocorrem nos horários de saída das embarcações.

Ao desembarcar da estação das barcas, e seguindo o fluxo de pedestres à esquerda, é possível localizar o terminal rodoviário Presidente João Goulart. Considerado o maior da América Latina em circulação de pessoas, 350 mil pessoas nele desembarcam nas suas plataformas todos os dias. Cerca de 1.200 ônibus ligam Niterói a municípios próximos como São Gonçalo, Itaboraí, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Araruama, Rio Bonito, Maricá, Saquarema e Rio de Janeiro (Praça XV).

Por conta da aceleração no processo de industrialização e urbanização das grandes cidades, o trânsito dá um nó e o caos é inevitável, principalmente nos horários de pico. Milhares de pessoas, entre trabalhadores e estudantes, utilizam o transporte público e carros particulares para chegar aos seus destinos.

contorno

A sensação de quem encara todos os dias o caótico engarrafamento da Avenida do Contorno, Alameda São Boa Ventura e a Rodovia BR – 101 é que não há mais para onde fugir. Não tem como ampliar as avenidas, por conta dos prédios, comércios e estaleiros. Falta espaço para andar nas ruas ou até mesmo utilizar um transporte alternativo.

Em Niterói, a prefeitura da cidade criou o Plano Niterói de Bicicleta, que visa a melhoria da mobilidade urbana focada no uso da bicicleta como meio de transporte. Implantar ciclofaixas e cliclovias é uma forma imediata de reduzir as longas filas para utilizar as barcas e os ônibus, e também contribuir com o meio ambiente.

Apesar de ser a última tendência nas cidades europeias, a bicicleta sempre foi vista como um meio de lazer utilizado apenas nos finais de semana. Porém, a simples bike funciona como grande aliado na preservação do meio ambiente, além de ser um excelente exercício físico. Em Amsterdã, a capital da cidade da Holanda, usar a “magrela” já faz parte do cotidiano dos 800 mil habitantes: cerca de 880 mil bikes circulam pelas ruas.

Em Niterói, é possível notar mais ciclistas pelas ruas do Centro e de Icaraí. De acordo com o levantamento feito pela Associação Mobilidade Niterói em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), o número de bicicletas aumentou. No trecho entre as avenidas Amaral Peixoto e Marquês de Paraná, somente do mês de maio (29/5) até outubro (22/10), houve um crescimento de 52 ciclista por hora. Já nas ruas São Lourenço e Jansen de Melo, o aumento foi de 19 ciclistas.

Em São Paulo o número de ciclistas é motivo de orgulho, 86,1 mil, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope. O aumento foi acompanhado durante a ampliação da malha cicloviária da cidade. Diferentemente de Niterói que tem 30 quilômetros de cliclovia, os paulistas ostentam 133,6 km e ainda conseguem escapar de 2h46, o tempo médio gasto no trânsito intenso da metrópole.

“Quem pedala está mais atento às pequenas mudanças de qualquer natureza no meio que o cerca do que quem dirige ou utiliza o transporte urbano”, destaca a arquiteta Thais Finochio. Ela utiliza a bicicleta diariamente para trabalhar, fazer compras, sair com os amigos, visitar museus e até levar os animais de estimação ao veterinário.

Uma das importantes implantações realizadas pela prefeitura é o Circuito Universitário. Este faz a ligação do Centro, na estação das barcas e vai até o principal ponto turístico da cidade, o Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Boa Viagem. Um investimento que agrada não só os estudantes e moradores da cidade, mas atrai também os turistas que preferem se locomover utilizando a bicicleta. Para chegar ao museu, o ciclista passa pelas ruas José Bonifácio, Nilo Peçanha, Tiradentes e Lara Vilela, localizadas no Gragoatá e no Ingá. Além disso, é possível chegar a outros museus como Solar do Jambeiro e Janete Costa.

Além do circuito, outras ciclofaixas e ciclovias foram implantadas com o objetivo de oferecer mais infraestrutura para a população. Para os ciclistas que trafegam pela cidade e os que se interessarem pela prática, a prefeitura de Niterói anunciou uma novidade, a Translagunar, a ser realizada na Região Oceânica de Niterói. No entanto, para ser implantada depende de um empréstimo de 12 milhões. Apesar do alto custo, o objetivo é ampliar a atual malha cicloviária da região em 57 quilômetros. De acordo com o projeto, a via começará em Itacoatiara, passando pela Lagoa de Itaipu, Canal do Camboatá e Lagoa de Piratininga, até o túnel do Cafubá.

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A prefeitura implantou 105 bicicletários nos bairros da cidade – Foto: Juliana Justem

Apesar do investimento nas ciclofaixas, ciclovias e bicicletários na cidade, ainda falta despertar o interesse da população para utilizar a bicicleta como transporte alternativo. Isto fica mais evidente ainda quando quando se pensa no problema de uma conscientização ambiental.

Por outro lado, reduzir a emissão dos gases poluentes não é apenas um dos benefícios de utilizar a bike. É possível inserir no dia a dia a prática como forma de combater o sedentarismo, melhorar o condicionamento físico e tornar a pedalada um momento de lazer.

São várias as opções de diversão, por exemplo, passeios no parque, praia e praças. O importante é substituir o carro ou o tradicional transporte coletivo pela bicicleta. Pensando nesse tipo de envolvimento com a bicicleta e a população, o repórter cinematográfico, Luis Araújo, que utiliza a “magrela” há mais de dois anos, criou o projeto Pedal Sonoro. Ele andava de bike em São Paulo, e agora pedala nos fins de semana em Niterói.

A partir de uma conversa com os amigos, o projeto foi criado com a ideia de estimular o uso da bicicleta como meio de transporte. De maneira a atrair os participantes, o grupo utiliza uma caixa de som que sempre os acompanha nas pedaladas. Além disso, o projeto Pedal Sonoro procura discutir o espaço urbano através de debates e oficinas sobre as bikes. A primeira edição contou com a participação de treze pessoas, ao som de Jazz e Rock Fusion. O movimento foi crescendo. Atualmente, os encontros realizados duas vezes no mês reúnem cerca de 80 pessoas entre frequentadores assíduos e visitantes.

Antes dos passeios são repassados alguns pontos dos direitos e deveres do ciclista no trânsito. O Pedal Sonoro tem um cunho mais lúdico e se propõe a encorajar mais gente a pedalar, ao mesmo tempo em que informa sobre a educação para o trânsito. Através da página oficial do Pedal Sonoro no facebook os participantes escolhem os temas dos encontros e as músicas que irão acompanhá-los durante o trajeto, escolhido na hora de forma democrática.

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Ciclistas se concentram na praia de Icaraí para mais uma pedalada – Página Oficial do Pedal Sonoro

Para a ciclista Thais Finochio, participante do grupo Pedal Sonoro, promover encontros com o objetivo de discutir ações para incentivar o uso de bicicletas como alternativa de transporte e de melhorias na cidade é importante. “Acredito que organizar-se em grupos para debater propostas de melhorias que possam ser encaminhadas aos órgãos competentes é um meio para transformarmos a sociedade”, observou.

Os ciclistas que mudaram os hábitos e agora utilizam a bicicleta como meio de transporte enfrentam alguns problemas nas avenidas e ruas da cidade. A falta de respeito dos motoristas, que invadem os espaços reservados, como as ciclofaixas é um deles.

De acordo com Luis Araújo, as campanhas de educação para o trânsito e fiscalização precisam ser mais eficientes. “Acreditamos que para se transformar realmente a sociedade deveria se investir de maneira contundente na conscientização e educação para o trânsito. Não podemos esquecer da fiscalização também, que praticamente não existe na cidade”, destacou.

Para os motoristas que não respeitam as leis e estacionam nas ciclofaixas, a infração é considerada grave com multa de R$ 127,09 e perda de cinco pontos na carteira. Além disso, o veículo do infrator é recolhido e encaminhado para o depósito.

A educação no trânsito é uma das primeiras conscientizações importantes para que as bicicletas predominem nas ruas. Ter espaço reservado é fundamental, mas respeitá-lo é fazer com que mudanças aconteçam na cidade. Não faltam movimentos, passeatas e programas de incentivo ao uso das bikes no dia a dia, o que ainda está ausente é a coragem de enfrentar as avenidas com as bicicletas.

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